24 agosto, 2011

não adianta chorar pelo leite derrubado.

Olho pro leite que, acidentalmente, derramei no chão. E só observo. Não há um músculo que se mova um impulso que me mexa e um pensamento coerente. Sou só eu, um copo de leite derramado, o cheiro doce do leite azedo e só. O líquido branco vai escorrendo pela madeira, entranhando-se nos minúsculos buracos. “Isso vai dar merda”, pensei, mas continuei estática, observando o leite ganhar forma, fixar-se em qualquer canto. Eu deveria correr. Buscar um pano, secar a bagunça. Ou seqüestrar um canudo e sugar o leite de volta. Absorver. Isso. Eu deveria absorver tudo de volta, ao invés de ficar feita estátua, vendo o estrago ganhar formas, ganhar forças e marcar o piso pra sempre.

Vi minhas mãos travessas segurar o copo, nem tão cheio, e virar em cima do tablado. Azedou tudo. O tapete, o travesseiro largado num canto, a meia do pé esquerdo, as pelúcias. Tudo azedo. Mas, apesar da insanidade, tento encontrar coerência para aquilo que acabei de fazer. Chutei o copo de leite. Tem leite e tem cacos por todo caminho. E eu deveria me agachar limpar e tornar a limpar. Só observo. O leite escorrendo na madeira, encharcando o tapete puído. E lembro. E penso. E filmo. E repasso o filme na mente. E torno a lembrar, pensar, filmar... E não concluo nada. O leite entranha-se. Os olhos secam. A boca sussurra inacreditável: por que derramei o leite?

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