Olho pro leite que, acidentalmente, derramei no chão. E só observo. Não há um músculo que se mova um impulso que me mexa e um pensamento coerente. Sou só eu, um copo de leite derramado, o cheiro doce do leite azedo e só. O líquido branco vai escorrendo pela madeira, entranhando-se nos minúsculos buracos. “Isso vai dar merda”, pensei, mas continuei estática, observando o leite ganhar forma, fixar-se em qualquer canto. Eu deveria correr. Buscar um pano, secar a bagunça. Ou seqüestrar um canudo e sugar o leite de volta. Absorver. Isso. Eu deveria absorver tudo de volta, ao invés de ficar feita estátua, vendo o estrago ganhar formas, ganhar forças e marcar o piso pra sempre.
Vi minhas mãos travessas segurar o copo, nem tão cheio, e virar em cima do tablado. Azedou tudo. O tapete, o travesseiro largado num canto, a meia do pé esquerdo, as pelúcias. Tudo azedo. Mas, apesar da insanidade, tento encontrar coerência para aquilo que acabei de fazer. Chutei o copo de leite. Tem leite e tem cacos por todo caminho. E eu deveria me agachar limpar e tornar a limpar. Só observo. O leite escorrendo na madeira, encharcando o tapete puído. E lembro. E penso. E filmo. E repasso o filme na mente. E torno a lembrar, pensar, filmar... E não concluo nada. O leite entranha-se. Os olhos secam. A boca sussurra inacreditável: por que derramei o leite?
24 agosto, 2011
não adianta chorar pelo leite derrubado.
22 agosto, 2011
. nós dois ♥
- Que dia é hoje?
-- Três meses e doze dias depois.
- Sério que você conta?
-- Dia sim dia não, para ter algo pelo qual declarar saudade e pensar nostalgicamente enquanto deito a cabeça na janela do ônibus e deixo o pensamento te encontrar.
- Uma espécie de masoquismo?
-- Não, você é a saudade que eu gosto de ter.
- E você a que eu gostaria de nunca mais sentir.
-- Nunca mais sentir devido à minha presença constante ou à sua total indiferença à minha ausência?
- Sinceramente? De qualquer forma que aliviasse meu peito de sentimentos que só prometem e nunca são e me tornasse capaz de, mais uma vez, experimentar o prazer do vôo em vez dessa imobilidade angustiante.
-- E se você pudesse escolher uma dessas formas?
- No amor a gente nunca escolhe.
-- Mas e se pudéssemos?
- Jamais escolheria a sua presença.
-- Por quê?
- Porque nesse mundo em que amor não se escolhe e o que a gente escolhe nunca é, não quero correr o risco de te escolher e não ter. Quero sempre o risco de poder cruzar com você, mais uma vez e sempre, numa dessas esquinas.
-- Já que a gente não escolhe, essa história de amor poderia ser ao menos simples. A gente se cruza numa esquina e nunca mais desfaz o abraço, nunca mais conhece motivos pra se afastar, nunca mais deixa qualquer um outro entrar nesse jogo, além de nós dois.
- Mas o amor é simples, a gente é que complica.
-- A gente: eu e você ou a gente: o mundo inteiro.
- A gente.
-- Como assim?
- Quando eu te perguntei o dia, bastava que você dissesse a data de hoje. Simples. Não precisava que você revirasse o passado nem entrasse em explicações que acabaram por remexer em cicatrizes. Bastava que fosse a data de hoje e eu diria que era um ótimo dia pra desenharmos mais uma esquina e nos cruzarmos por lá. Mas no passado não há como interferir. Só no agora. Poderia ser simples como 1 + 1, mas a gente faz do amor uma equação com incógnitas demais para qualquer coração. Felizes são aqueles que não se preocupam em entender o que aconteceu, só continuam. Aprendem, não reviram mágoas. Se dão mais chances, acreditando no que foi bom. Seguem em frente, não supervalorizam dores.
-- E quem são essas pessoas?
- Por que não a gente? Ainda dá tempo, antes do precipício tem espaço para improvisarmos uma esquina e um encontro que não precisa acabar.
-- Esquece o que eu disse, hoje é dia de começar de novo. Eu e você. A gente. E só. Sem passado ou nenhuma outra pessoa. A gente. E nos bastamos.
Texto da Madrugada: 21/08/2011