24 agosto, 2011

não adianta chorar pelo leite derrubado.

Olho pro leite que, acidentalmente, derramei no chão. E só observo. Não há um músculo que se mova um impulso que me mexa e um pensamento coerente. Sou só eu, um copo de leite derramado, o cheiro doce do leite azedo e só. O líquido branco vai escorrendo pela madeira, entranhando-se nos minúsculos buracos. “Isso vai dar merda”, pensei, mas continuei estática, observando o leite ganhar forma, fixar-se em qualquer canto. Eu deveria correr. Buscar um pano, secar a bagunça. Ou seqüestrar um canudo e sugar o leite de volta. Absorver. Isso. Eu deveria absorver tudo de volta, ao invés de ficar feita estátua, vendo o estrago ganhar formas, ganhar forças e marcar o piso pra sempre.

Vi minhas mãos travessas segurar o copo, nem tão cheio, e virar em cima do tablado. Azedou tudo. O tapete, o travesseiro largado num canto, a meia do pé esquerdo, as pelúcias. Tudo azedo. Mas, apesar da insanidade, tento encontrar coerência para aquilo que acabei de fazer. Chutei o copo de leite. Tem leite e tem cacos por todo caminho. E eu deveria me agachar limpar e tornar a limpar. Só observo. O leite escorrendo na madeira, encharcando o tapete puído. E lembro. E penso. E filmo. E repasso o filme na mente. E torno a lembrar, pensar, filmar... E não concluo nada. O leite entranha-se. Os olhos secam. A boca sussurra inacreditável: por que derramei o leite?

22 agosto, 2011

. nós dois ♥



- Que dia é hoje?

-- Três meses e doze dias depois.

- Sério que você conta?

-- Dia sim dia não, para ter algo pelo qual declarar saudade e pensar nostalgicamente enquanto deito a cabeça na janela do ônibus e deixo o pensamento te encontrar.

- Uma espécie de masoquismo?

-- Não, você é a saudade que eu gosto de ter.

- E você a que eu gostaria de nunca mais sentir.

-- Nunca mais sentir devido à minha presença constante ou à sua total indiferença à minha ausência?

- Sinceramente? De qualquer forma que aliviasse meu peito de sentimentos que só prometem e nunca são e me tornasse capaz de, mais uma vez, experimentar o prazer do vôo em vez dessa imobilidade angustiante.

-- E se você pudesse escolher uma dessas formas?

- No amor a gente nunca escolhe.

-- Mas e se pudéssemos?

- Jamais escolheria a sua presença.

-- Por quê?

- Porque nesse mundo em que amor não se escolhe e o que a gente escolhe nunca é, não quero correr o risco de te escolher e não ter. Quero sempre o risco de poder cruzar com você, mais uma vez e sempre, numa dessas esquinas.

-- Já que a gente não escolhe, essa história de amor poderia ser ao menos simples. A gente se cruza numa esquina e nunca mais desfaz o abraço, nunca mais conhece motivos pra se afastar, nunca mais deixa qualquer um outro entrar nesse jogo, além de nós dois.

- Mas o amor é simples, a gente é que complica.

-- A gente: eu e você ou a gente: o mundo inteiro.

- A gente.

-- Como assim?

- Quando eu te perguntei o dia, bastava que você dissesse a data de hoje. Simples. Não precisava que você revirasse o passado nem entrasse em explicações que acabaram por remexer em cicatrizes. Bastava que fosse a data de hoje e eu diria que era um ótimo dia pra desenharmos mais uma esquina e nos cruzarmos por lá. Mas no passado não há como interferir. Só no agora. Poderia ser simples como 1 + 1, mas a gente faz do amor uma equação com incógnitas demais para qualquer coração. Felizes são aqueles que não se preocupam em entender o que aconteceu, só continuam. Aprendem, não reviram mágoas. Se dão mais chances, acreditando no que foi bom. Seguem em frente, não supervalorizam dores.

-- E quem são essas pessoas?

- Por que não a gente? Ainda dá tempo, antes do precipício tem espaço para improvisarmos uma esquina e um encontro que não precisa acabar.

-- Esquece o que eu disse, hoje é dia de começar de novo. Eu e você. A gente. E só. Sem passado ou nenhuma outra pessoa. A gente. E nos bastamos.

Texto da Madrugada: 21/08/2011